domingo, 25 de dezembro de 2016

Hope

“Ace corre girando sua espada da fênix e atinge a pata do dragão, fazendo sangue esverdeado salpicar nas paredes do calabouço da morte. Set, voando atrás das gárgulas que decoram o aposento, aproveita para lançar sua magia de bola de fogo, queimando a carne da barriga da criatura. Mas o dragão não se dá por vencido, e aponta sua boca escancarada para os herois, dela saindo um jato de ácido esverdeado que queima o paladino de Thyatis e joga-o para trás. Artemis, no entanto, aproveita-se da distração do enorme dragão para colocar-se devagar embaixo dele, rasgando o rosto em um sorriso ao ver um espaço entre as escamas que ele pode utilizar para atingir o coração da fera…”.

Bam. Bam. Bam.

Após breve pausa, a voz continua, mais incisiva:

“O dragão percebe a presença de Artemis e utiliza uma de suas garras para rasgar seu peito, jogando-lhe com violência de encontro a uma das paredes. O monstro prepara-se para devorá-lo, quando Ace, ainda fumegando pelo ácido, salta em seu pescoço e o atinge com sua espada. Set utiliza mais uma vez seus conhecimentos místicos para conjurar um raio mágico tão poderoso que abre um rasgo na lateral do dragão. Drike aproveita seu tamanho diminuto e….”

Bam. Bam. Bam.

“e… E ATINGE A CRIATURA COM SEU MACHADO. ATINGE. ATINGE”.


O homem levou o cântaro pela terceira vez à boca. O garoto, que observava o pai atender os recém-chegados, pensou que aquele homem nunca ia mais parar de beber.

– Obrigado, Gravos, por nos receber e deixar que acampemos em seu sítio. Tem sido uma loucura, esses dias. Que os deuses nos protejam.

O pai olhou com simpatia para as oito pessoas ali sentadas e deu uma resposta educada. Já há dois meses tinha virado rotina receber viajantes cansados, pessoas que saíam de Valkaria levando nas costas apenas o que podiam carregar. O homem sedento era um bom exemplo. Pela conversa com o pai, o garoto sabia que ele era um banqueiro, um homem importante e de muitas posses. Agora, tudo que possuía estava em cima de uma carroça na qual se espremia ele, mulher e filhos. Aren, contudo, ainda achava que eles tinham conseguido levar muita coisa; a maioria das pessoas que paravam ali possuíam apenas a roupa do corpo, ou quando muito algumas panelas. Ficavam uma noite, no máximo, e depois iam embora, sem olhar para trás. Algumas deixavam um aviso antes de ir, como foi o caso do banqueiro.

– Você tem que sair daqui, Gravos. Está a menos de três horas da capital.

– Não vou sair da minha casa. Herdei do meu pai, que herdou do dele. Você sabe disso, Reginfled.

– Você não entende… Você não viu o que eles fazem com as mulheres… Eles não são… humanos… eles…

Gravos pediu para o banqueiro se calar e mandou que Aren entrasse. “Muito barulho para apenas mais uma guerra”, pensou o garoto assim que sumiu da vista do pai. Em vez de ir para casa, passou por trás do moinho que havia no sítio e se afastou para um pequeno brejo que havia no fundo do sítio. Gostava do lugar e gostava de pensar que era só dele. Ajudava o fato de quase ninguém ir ali. Um local secreto.

– Seu pai fez bem em lhe retirar dali.

Aren estalou o pescoço ao virar rapidamente para o lado de onde vinha a voz. Era uma garota só um pouco mais velha que ele, filha do Banqueiro. Usava roupas estranhas, que obviamente não eram adequadas ao sítio. Estava encostava na Parigueira, uma velha árvore que havia logo após a descida de um barranco que levava ao brejo.

– O quê?

– Você ficaria com medo. Com medo de dormir à noite.

– Não teria nem um medo. É só mais uma guerra estúpida.

– Não estamos fugindo de uma guerra.

– Estão fugindo de quê, então?

– De monstros – falou a garota com uma voz que fez a pele de Aren se manifestar.


O dragão finalmente estava caído para o lado, derrotado. Ace e Set estavam em cima da criatura, em júbilo. Artemis e Drik estavam lado a lado, abraçados, comemorando a difícil vitória. As gárgulas, mudas e ainda fumegando ácido, testemunhavam o sucesso do grupo.

O garoto esperou. O barulho finalmente cessara. Acabou, ele pensou. Acabou tudo. Soltou o ar pela primeira vez naquela noite.

Ele estava errado.


Encapuçados com chicotes, dizia uns. Uma nova religião, falou um padre de Khalmyr. Querem nos obrigar a aceitar um novo deus! Uma blasfêmia. Segundo um sapateiro, escravizavam quem queriam, e bebiam o sangue de quem não prestava. Para um antigo comerciante de vinho, eles eram ladrões de mente, a mando de Sszzaas, Deus da Traição. Ladrões de mente são muito espertos, dizia ele, assim como o deus das mentiras. Foi assim que enganaram o imperador.

Aren aprendera a escutar as conversas dos viajantes, cada vez mais apressados e desesperados, sem chamar a atenção do pai. Uma tarde um sujeito repleto de tatuagens, acompanhados de quatro ou cinco jovens, saiu do grupo e veio até ele, que estava sentado na terra atrás do pai, um tanto afastado.

– Olá, rapaz. - ele olhou para os objetos que Aren manuseava – O que têm aí?

-- Nada – falou o garoto entredentes, olhando para o homem. Não tinha gostado como sua mãe se referira a ele um pouco antes, sussurrando para o pai que ele era um “cafetão”. Aren não conhecia essa profissão, mas não parecia ser algo bom como um banqueiro.

- Nada? É por isso que se esforça tanto para que seu pai não o veja?

Aren ficou em silêncio.

- Não vou contar para ele.

Devagar, o garoto abriu a mão, mostrando os pedaços de madeira que segurava. Lembravam vagamente figuras humanoides, mais eram tão surradas que era difícil ter certeza.

-- Interessante.

– Esse é  Set – nomeou o garoto, segurando uma delas, feliz pelo interesse do “cafetão”. Talvez fosse um fabricante de brinquedos. –, o mais poderoso mago de toda Arton. Ele consegue te matar apenas levantando um dedo.

– Não brinca.

– Sim! Este é Ace, paladino de Thyatis. Ele não morre nunca e não tem medo de nada, e sempre faz o certo. Esse aqui é Artemis, ele é esperto e somente é visto quando quer.

Aren pegou o menor pedaço de madeira.

-- Este é Drik, o anão mais poderoso de todos. Ele inclusive já venceu os 13 gigantes. Tem também o Rui, que joga encantos com seu instrumento musical. Juntos eles formam os Aventureiros de Arton e podem derrotar qualquer monstro que apareça!

– Não, não podem.

– Podem, eles podem derrotar todos os monstros que existem, mesmo que seja um novo Deus. Ninguém vai roubar o cérebro deles, ou beber seu sangue ou bater neles com chicotes. Vocês não precisam fugir mais, por que…

– Eles não vão vir, garoto.

– Claro que vão, os Aventureiros….

– Eles estão mortos, garoto. Mortos, entendeu?

– Eles não estão! - o garoto levantou – não estão, é mentira? Eles….

Escutando a voz do filho, Gravos levantou-se e foi até ele.

– O que está fazendo,  Aren?

-- Eles vão nos salvar! Os aventureiros! Eles não estão mortos!

– Você está de novo brincando com essas porcarias? – Gravos segurou o filho pelos ombros e o balançou – vá terminar de trazer a palha para o celeiro e pare com estas palhaçadas, Aren! Não temos tempo para isso. Vai!.

O garoto correu, sem escutar mais nenhuma palavra. No seu local secreto, só o vento secou as lágrimas do seu rosto.


Tudo em silêncio, Aren esperou. Catou os bonecos e abriu, com vagar, a porta do celeiro. Silêncio. Dali se via a casa, ao fundo. A porta, entreaberta, deixava escapar um rasgo de luz, do lampião, que era a única coisa que orientava o garoto. Era uma noite sem lua.

Com vagar, ele andou até a porta. Não havia nenhum único som, salvo o sibilar do vento passando entre as árvores. Tentou abrir a porta o mais suave que pode, mas ainda assim ela rangia fino. Era uma casa de madeira, velha. Aren não se lembrava dela ter sido nunca reformada. 

A cozinha parecia vazia. O garoto entrou fechando a porta atrás de sim, mas aquela porta nunca fechava direito. Deixava passar vento, fazendo a chama do lampião oscilar em cima da mesa. As costas de Aren gelaram, e então ele sentiu medo, muito medo. Segurou os bonecos com força, tanto que chegou a machucar a mão, e avançou mais na cozinha. Foi quando viu o pé descalço da mãe, junto à porta da despensa. Não via o resto do corpo, que estava para dentro deste cômodo. A visão do pé, no entanto, já lhe retirou o coração do peito; ele estava virado em um ângulo impossível, o dedão encostado na canela. A sandália, a sandália que a mãe tanto pedira para o pai comprar, estava jogada para o lado, há uns dois metros de distância.

Com pés de uma tonelada, esforçou-se para ir até a despensa. A cada passo, via mais do corpo da mãe. O resto da canela, o joelho, a barra do vestido – e então o sangue.

Aren se ajoelhou e vomitou. O ranger da porta, entretanto, o fez interromper o líquido quente na goela. Vento soprou mais forte na cozinha, fazendo a chama balançar ainda mais, e uma sombra pendeu sobre o garoto, que ainda segurava os brinquedos com força.

Foi então que viu.


– Temos que ir embora daqui, Gravos. Amanhã.

– Não vou sair da minha casa, Sara. Coma direito, Aren.

– A guarda da cidade de Valkaria não funciona mais. Não há mais exército do reinado patrulhando as estradas. Estamos sozinhos, Gravos.

– Esta propriedade é tudo que temos… tudo que temos. Não é possível que não possamos mais jantar sossegados!

– Você sabem o que têm naquela cidade… a todo tempo olho para o céu esperando ele ficar vermelho e demôn…

– Não se atreva, Sara! Aren está aqui!

– Mas ele tem que saber! Ele…

Um barulho na porta interrompeu a mãe. Todos ficaram em silêncio.

– Quem pode….

Gravos levantou-se da mesa e foi até a sala, sendo seguido pela mulher. Aren aproveitou o breve momento de solidão para pegar o boneco de Set de dentro de um saquinho que mantinha escondido no calção. Apontou o braço do “mago” para o local onde pai estava sentado. “Então Set moveu seus braços e falou palavras mágicas antigas. Apontou então para o temível ogro que avançava com uma clava contra ele, fazendo-o sumir no ar. No lugar onde estava a criatura, somente...”.

Bam. Bam. Bam.

Passos. Gritos de homem e de mulher. E então sua mãe surgiu no limiar da luz entre a cozinha e a sala. Estava tão branca que Aren poderia não reconhecê-la, caso a visse na rua.
– Fuja, Aren, fuja…. Agora!


Bebida. Bebida, sangue e urina. E ainda outra coisa que o garoto não conseguia definir. Eram esses os cheiros do homem que surgiu no limiar da porta da cozinha. 

Ele tinha um facão na mão, já manchado de sangue, substância que também cobria suas vestes surradas de couro. Seu rosto era escuro e esquio, com várias erupções e deformidades que o fariam se destacar em uma multidão. Ele avançou contra o garoto, mas este foi mais rápido e saltou para a sala. A visão do seu pai caído, com a garganta aberta, bem como a de dois outros homens que não conhecia, não o fez parar. Impelido pelo mais absoluto pavor, Aren jogou-se contra a porta para o pátio e ganhou à noite, pouco enxergando. Apenas por instinto tomou o caminho do moinho, e do brejo, que tanto conhecia. Atrás dele, escutava o homem arfar e praguejar. 

– Vou lhe pegar, garoto… vamos nos divertir um pouco.

Aren parou na borda do brejo. Nada se enxergava, mas desceu com facilidade o pequeno barranco e circundou a velha Parigueira. Tentou ficar quieto, mas escutava um batuque rítmico que não conseguia identificar. Demorou mais de dez segundos para entender que eram as batidas do seu próprio coração.

– Estou lhe ouvindo, garoto – o homem estava próximo, bem próximo, embora Aren não pudesse vê-lo. -- Vai ser rápido, prometo. Não devia, já que seu pai deu trabalho e matou dois dos meus companheiros – ele agora estava mais perto ainda, questão de poucos metros – mas sua mãe já pagou sua dívida, posso garantir. Me diverti um bocado.

O garoto esforçava-se para ficar em silêncio, mas não conseguia silenciar a respiração e o próprio peito. Amaldiçoou-se por não ser Artemis e sumir nas sombras, ou Ace para cortar aquele assassino em dois, ou mesmo Set para enviá-lo ao inferno proferindo apenas uma palavra mágica. Mas ele não era um heroi. Era simplesmente um garoto.

– Eu vou lhe pegar, filho… Não se preocupe…. Será melhor comigo do que com a merda vermelha…. já posso sentir sua carne….

Por um segundo a faca do homem brilhou, e Aren percebeu que ele estava ao seu lado, logo acima do barranco. O garoto, então, sem pensar, puxou a perna do homem. Ele escorregou na lama e desceu de supetão o barranco, indo de encontro aos galhos da Parigueira. Fez barulho horrível durante alguns segundos e então silenciou. Demorou um pouco até que Aren, tateando, percebesse que dois galhos mais grossos e afiados atravessavam o peito do homem. Demorou ainda mais tempo para perceber que ainda  apertava os bonecos na mão em formato de punho.

Estava sozinho agora. E a estrada lhe esperava.


O Mensageiro dos Deuses

A armadura pesada rangia sob o peso do guerreiro, a cada passo dado na tenda do General. Não, ele não era novo como antes. Não, o mofo nas lonas do ambiente não eram do seu agrado.

- Meu nome é Vidson Laued, de Kanilar, Yuden. Terceiro General em comando da União Militar do Leste e temente a Keen. Apresento-me para o serviço após o tempo de exílio.

Ion Ruf, atrás da mesa repleta de mapas, deu um pequeno sorriso para seus próprios oficiais superiores que circundavam a mesa.

- Um lacaio de Arsenal, você quer dizer. Vocês não morreram todos, quando o colosso caiu?

- Não, todos. Mestre Arsenal preparou….

- Mestre? Seu “mestre” conseguiu exterminar metade da população de Yuden e milhares de meu próprio país e de Nalmack. Não chame de mestre quem tombou em combate e depois envergonhou a si próprio aliando-se a seus inimigos para somente ser derrotado novamente pelos demônios rubros, de quem é prisioneiro.

Um dos oficiais, de bigodinho louro, o observava do alto, sorridno, balançado a cabeça em concordância com cada palavra dita pelo comandante. Apesar da revolução em seu peito, a ética militar e a incerteza da situação deviam frear a boca de Vidson. Mas ele já não era novo quanto antes, e o fogo em suas entranhas era mais difícil de conter.

Mestre Arsenal lutou com bravura na batalha do Colosso e caiu junto aos seus inimigos, misturando seu sangue com deles. Forneceu uma batalha que agradou a Keen. Após, se uniu com as forças do reinado para derrotar um inimigo em comum. Não há vergonha em sua derrota.

- Ele foi estúpido – vociferou o comandante, batendo com o punho na mesa. - uma verdadeiro estrategista teria esperado Lady Shivara atacar e ser destruída pela tempestade, para então atacar, com o inimigo ocupado e dividido. E não me fale em Keen, general do tolo Arsenal, porque bem sabe que sou eu, agora, sou o sumosacerdote do Deus da guerra. Eu falo por ele em Arton – Ian fez uma pequena pausa. - E foi por isso que veio até aqui. Porque cansou de rastejar e procura dá sentido a sua vida miserável, depois da covardia da fuga.

O Yudeano permaneceu calado.

- Veio buscando ser um oficial superior. Homens para liderar em um muro de escudos. Uma morte digna, talvez.

Nenhum som adveio do antigo general de Arsenal. O sorriso de escárnio do oficial com bigodinho ao lado do comandante começava a incomodar.

- Não, Vidson. Uma morte sem dúvida, mas sem liderança. Estamos precisando…. - Ian olhou para o oficial, que respondeu sem tirar os olhos divertidos da figura do guerreiro que aguardava impassível – de um carrasco, comandante.

Um carrasco! – anunciou Ian. - Esse é o trabalho que temos para um dos aliados do covarde Arsenal.

Eu aceito – falou o guerreiro, sem hesitar. Não olhava para o comandante, mas para o oficial.

✠ 

O último esforço de guerra contra tormenta encontrava-se acampado ao norte da floresta do Loma, em Bielefield. Quarenta e cinco mil homens de várias nacionalidades marchavam para Valkaria, para enfrentar o novo deus Ahradak, senhor da tormenta. Há 15 dias Vidson acompanhava a tropa, observando que os “homens” tinham espinhas demais e força de menos para segurar o aço que pretendiam usar contra os demônios. Os verdadeiros “homens” haviam morrido há mais de um ano, na batalha do reinado e Arsenal contra a Tormenta. O sangue correu solto naquele dia, e a perna de Vidson, gravemente ferida naquela batalha, ainda doía de modo excruciante. “um ferimento feito pela tempestade rubra”, atestou uma das muitas clérigas de Lena que ele procurou, “nunca pode ser realmente curado”. Não, não podia.

- Diga ao comandante que estou indo – falou Ian ao mensageiro, que o acordara naquela manhã com ordens do novo sumosacerdote de Keen..

Chegou a hora. Não deixemos o maldito Zakaroviano” esperando.

Durante 15 dias não houve ordens do comandante. Durante 15 dias eles apenas marcharam e treinaram. Mas durante 15 dias tiveram também pesadelos com céus tomados de vermelho e chuva de sangue. Tal tormento toda à noite não iria passar sem consequências.

Em uma das clareiras do acampamento, 12 jovens estavam ajoelhados e amarrados. Tinham no corpo indícios de que haviam sofrido naquela madrugada suplício ainda maior que os pesadelos recorrentes.

- Pensei que a pena por deserção fosse a morte - falou Vidson para Ian, que o aguardava junto com outros oficiais - espancamento prévio não faz parte da punição.

Não podemos nós dar o luxo de perder soldados, carrasco. - o comandante então levantou a voz, dirigindo-se à tropa que fora colocada em forma para assistir as execuções. - Esses doze covardes tentaram sair do acampamento, durante à noite, e merecem uma dura punição. Que todos saibam que aquele que abandonar a tropa e suas obrigações será espancado e executado. Sem exceção. Faça o seu trabalho, carrasco. E sem presa.

Vidson observou quando um dos doze torturados foi arrastado até uma pedra. Os soldados tiveram muito trabalho para colocá-lo com a cabeça na pedra, o pescoço esticado, pronto para o golpe fatal. Vidson percebeu que era um menino sem pelos no rosto. Lutava, debatia-se, mas amarrado e contra quatro homens mais velhos e mais fortes, nada podia fazer. O guerreiro de Yuden retirou lentamente a espada da empunhadura e andou rapidamente, decido a dar um golpe limpo.

- Eu exijo uma morte digna – gritou o garoto. - quero morrer em combate, com uma espada na mão, como meu pai e meu avó, pela glória de Keen.

Vidson parou, já com a espada em cima do condenado.

- Ele tem razão – gritou para Ian. - o código permite a condenação ou absolvição por combate para quem o requer. Eu lutarei com ele.

- Não – o comandante foi a frente, com o rosto vermelho. - Eu faço o código agora, e digo que quem desertar vai morrer como um cão. Ele não terá uma morte digna hoje, carrasco. E nem você.

Ian estava há 10 passos do antigo general de Arsenal. Não havia obstáculos entre ele e a espada que Vidson segurava, uma espada que poderia ser lançada sem dificuldades, como ele já o fizera por diversas vezes. Vidson então desceu a mão bem devagar pela empunhadura, até a lâmina.

O rapaz tentava não demonstrar medo, olhando duro para a face do carrasco. Não podia esconder o tremor das mãos, no entanto, nem controlar os esfincter. A urina desceu por sua perna, até o solo. Ninguém riu.

Vidson, então, tirou seus olhos de Ian e se voltou para o rapaz. Segurou a espada pela empunhadura e deu um golpe seguro no pescoço do garoto, e viu sua cabeça rolar sem dificuldade na terra agora manchada de sangue de Bielefied.

- O próximo - gritou.

                                                                 ✠

- tenho certeza do que eu digo – falou o Callistiano, sentado com os três homens em volta da fogueira. - meu primo Boren esteve na batalha de Trebuck. Eles soltam raios pelo cu. E não só um, mas muitos.

Roben, um arqueiro Dehon, balançou negativamente a cabeça.

- Que palhaçada, Zaur. Se eles soltassem raios pelo cu, lutariam de costas e não teríamos sido derrotados em Trebuck.

- Deixe de ser burro, Roben – Zaur chupava o osso de um coelho que tinham achado perto do acampamento. - a bunda dos demônios fica no peito!

- Se ela fica no peito – afirmou o esquivo Joel, de PortsMouth, conhecido por roubar nas cartas – como eles aguentam quanto cagam? Imagine o fedor!

- Aí você tem razão – concordou Zaur, jogando a carne fora. - mas meu primo não é de mentir. Se ele diz que soltavam raios pelo cú, é porque soltavam.

- O que acha, Carrasco? - indagou Joel, para Vidison que sentava sozinho, alguns metros atrás da fogueira. - Você viu um dos demônios na batalha?

Vidson mal escutou e não respondeu. Suas mãos ainda estavam sujas de sangue do seu trabalho naquele dia à tarde.

Deixe ele quieto, Joel – advertiu o Portsmouthiano. -, se quer manter sua cabeça nos ombros...

- Não, o carrasco esteve lá, não esteve, carrasco? - Zaur jogou um pedaço de pau em braça para perto do Yudeano, para iluminá-lo – Esteve com Arsenal, quando este lutou com as forças do reinado. Nosso comandante disse que foi um ato de traição.

- Cale a boca, Callistiano – pediu o arqueiro, olhando de esguelha para Vidson.

- Não acho que devo calar. Ele se aliou aos seus inimigos. Callistia era contra Arsenal, que era um bandido, claro, e para mim foi o fato dos aliados se juntarem a ele que ocasionou a derrota.

- Foi uma decisão de Ace e set – aduziu com ares de sabedoria Joel. - eles convenceram Shivara a aceitar a aliança.
- O que demonstra como os herois são burros. Deveriam ter matado arsenal na batalha dos colossos, e não se aliar a ele – Zaur continuava a carga, acendendo um cigarro de palha. - fizeram o favor de morrer e nos deixar na merda. E arsenal, onde está? Pendurado como um bibelô na praça imperial de Valkaria, para onde agora marchamos. E você, Yudeano, porquê não morreu ou foi preso? Fugiu? Pensei que servos de keen não podiam fugir.

- Não o provoque, Callistiano – Joel jogou mais madeira na fogueira, antes de continuar a falar. - a tormenta, mesmo que não jogue raios pelo cú, é um inimigo à altura. Não estive em Trebuck, mas sei que as forças do reinado fizeram o que puderam, assim como ace, set e Arsenal. Aliás, tenho muita admiração por Set. Estive na cidade que fundou, antes de chegar aqui.

- Naquele buraco de portal? - escarneou Zeon. - aquilo é igual uma ponte para mim. Não tem a menor diferença.

- É uma cidade moderna, então você não ia entender mesmo. Estava em Valkaria quando o imperador anunciou a nova religião e que… vocês sabem quem seria nosso novo Deus. Mal tive tempo de fugir para portal. - Joel se recostou em um barranco. - está difícil a vida por lá, não pude me manter.

- Isso por que é um ladrão safado e não tinha nada mais para roubar lá. - afirmou o arqueiro, arrancando risos de Zaur e do próprio Joel. Somente Vidson não riu.

- Tá, isso também. Mas o engraçado é que, bem, tentando ganhar algum dinheiro honesto escutei uma conversa de Alassara, a regente da cidade. Ela estava recrutando pessoas para irem ressuscitar Set e Ace.

- Isso é impossível – falou o Arqueiro. - Todos sabem que os clérigos não tem mais esse poder.

- Eu sei. Mas foi isso que eu ouvi. Havia um plano, que envolvia a Deusa… a deusa da noite, bendito seja seu nome. Eles pareciam confiantes.

- Ah, com Set ou sem Aet, uma coisa eu digo – o Callistiano levantou, e mostrou a própria bunda. - as porras dos demônios da tormenta soltam raios pelo cú! Tomem cuidado!


Vidson deixou de ouvir a conversa, perdido em seus próprios pensamentos. Após algum tempo, foi até sua tenda e se preparou. Na madrugada alta, nocauteou um dos guardas que vigiavam o estábulo e pegou um dos cavalos, um garanhão negro. Foi necessário apenas nocautear mais dois soldados para sair do acampamento e ganhar a noite. “Um zakaroviano pode entender de armas, mas não entende nada de guerra”, pensou o guerreiro enquanto cavalgava para o oeste.


Próximo da saída utilizada por Vidson para sair do acampamento, uma figura saiu das sombras e caminhou satisfeito sob o luar, sem medo que qualquer um o visse. Estava com a forma de um dos soldados, mas poderia tomar a forma de um oficial com um bigodinho, um desertor executado ou mesmo um ladrão de Postsmouth. Esse era um dos privilégios de ser um Deus.